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Aumenta o Som
Por Fabio Sola 4 min. de leitura
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Aumenta o som

Por Fabio Sola

 — Vem! Vem ver!

 — Ver o que, meu Deus?

 — Olha aqui no olho mágico. Ele saiu de casa agora. Vai lá para a lixeira.

 — E você também não faz isso sempre?

 — Faço, mas só para jogar o lixo fora. Ele não. Ele fica um tempão lá.

 — E o que ele faz?

 — Isso que vamos descobrir agora! Instalei uma micro câmera sem fio que transmite via wi-fi. Vamos ver aqui no celular o que ele faz.

 — Você é doente, mas confesso que adorei a ideia!

 — Olha lá! Olha lá!

 — Ele está procurando comida?

 — Não sei. Parece que ele gosta de fuçar o lixo dos outros.

 — Ai, que nojo! Ele tomou um gole da cerveja que estava ali no aparador.

 — Shh! Fala baixo! A cerveja ele trouxe agora. Sempre deixa uma lata grande e amarela de cerveja lá.

 — Que alívio!

 — Olha a cara de felicidade dele. Deve ser a melhor hora do dia para ele.

— Conviver com aquela mulher não deve ser fácil. Que mal-amada aquela esticada, Deus me livre. Espichou tudo o q tinha que espichar no rosto. Não adiantou nada. Nada agrada aquela mulher.

 — Acha que ele está procurando alguma coisa para servir para ela, como forma de vingança?

 — Que cruel você!

 — Não é impossível.

 — Agora ele pegou alguma coisa. O que é aquilo?

 — É um pedaço daquela nossa pizza de terça?

 — Ai, não! Ele colocou num saco e vai levar para casa.

 — Isso aqui é ou não é melhor que assistir à novela?

 — Lógico que não, meu Deus! Que doença!

 — Ele vai dar a pizza para a mulher dele comer.

 — Você instalou câmeras na casa deles também?

 — Imagina! Seria ótimo continuar assistindo à nossa série favorita.

 — Que série?

 — “Estranhos Vizinhos”.

 — Eu acho que foi ele quem jogou cupim no nosso apartamento.

 — Não sei nem se isso é possível.

 — Qual era a profissão dele antes de se aposentar?

 — Milionário.

 — E mora aqui neste prédio?

 — Falido.

 — Por que ele era milionário?

 — Era dono de uma empresa de cimento, ou algo do tipo.

 — Talvez seja essa a origem e tanto desgosto da mulher dele: tinha tudo e agora não tem nada. Vive na miséria comendo lixo, mas mantém as aparências com maquiagem barata.

 — Ele também pode ter levado a pizza para o cachorro.

 — Se for isso, vou denunciar!

 — Se fosse para a esposa, tudo bem, então?

 — Não, mas ela pode se defender sozinha. E fora que é uma pessoa muito desagradável. Merece!

 — Não acredito que você falou isso.

 — Olha lá! Ele fuçou tanto que encontrou outra coisa.

 — Shh, fala baixo! Ele ouviu!

 — Ai, meu Deus.

 — Shh! Ah, não. Ele vem na nossa direção. Vai tocar aqui. Não acredito nisso! Não faça barulho!

 — Aí, meu Deus!

 — Que música alta é essa?

 — “How High The Moon”, Chris Montez.

 — O quê?!?

 — Apertei sem querer o play do bluetooth.

 — Você pirou! Agora ele vai nos descobrir.

 — Não, olha! Ele desistiu. A música afastou ele!

 — Deve ter entendido que era outra coisa. Briga, sei lá.

 — Olha aqui! Ele parece procurar por uma câmera na lixeira.

 — Ah, não! Ele achou minha câmera e colocou no bolso!

 — Você é louco de ter colocado aquilo lá! E agora? Com que cara vamos encontrar com eles?

 — Olha aqui no olho mágico! Parece que vai tirar todo o lixo da lixeira. Vai carregar tudo! Aumenta a música!

 — Que loucura, meu Deus! Temos que fazer algo! Tomar alguma atitude! A casa deles deve estar repleta de rato e barata!

 — Ah, não! Não! Não!

 — O que houve?

 — Ele jogou o lixo todo na nossa porta!

 — O quê?!

 — Neste momento ele urina em cima do lixo! Que terror!

 — Faça alguma coisa!

 — Não posso fazer nada! Ele pode nos denunciar por causa da câmera!

 — E daí! Ele urinou na nossa porta! Chama a polícia!

 — Quer dormir na delegacia?

 — Olha aqui agora! Ele vai defecar!

 — Que noite terrível!

 — Saiu alguém do elevador.

 — Que cena grotesca!

 — Ele foi flagrado por um sujeito imenso. Acho que é o segurança do condomínio. Aquele novo, sabe?

 — Sei.

 — Nossa!

 — O que foi?

 — Ele assustou e se borrou mais ainda.

 — Que pavor!

 — O que vamos fazer?

 — Aumenta a música!


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