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Big Data Backup
Por Fabio Sola 6 min. de leitura
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Big Data Backup

Por Fabio Sola

— Podemos começar a entrevista?

— Não estou de acordo com ela, mas podemos.

— É parte do acordo. Não há saída para o senhor.

— Posso me manter em silêncio.

— Já pagamos pelo seu barulho. Hora de aumentar o volume.

— O dinheiro não vai para mim. Posso falar o que quiser, inclusive mentiras. Estou fadado à minha condenação, quatro paredes e uma grade. Sem futuro, sem razão de contar a verdade.

— A prisão é um limitador, sua pena compromete nosso trabalho, mas fizemos o possível para fechar o acordo com justiça. Sua família está segura e vai receber a parte dela. Com isso garantido, há motivo suficiente para uma colaboração sincera.

— Nem consigo ver seu rosto. Como posso falar a verdade sem olhar nos olhos de alguém?

— Não lhe é mais permitido contatos por conta da sua sedução.

— Tenho admiradores.

— É bom que fique claro que o senhor não é um herói aqui fora. As pessoas lhe consideram um monstro.

— Também é uma forma de se admirar. Para alguns, o monstro é um herói.

— Certamente não é a maioria.

— Você só precisa da maioria se quiser ser presidente. Para todo o resto, não.

— Acho que sua condenação foi pela maioria.

— É verdade, mas eu não era mais o chefe. Ser ex-chefe é pior do que nunca ter sido. São muitos inimigos ao longo dos anos.

— A diferença é a conta bancária.

— Foi tudo devolvido. Tudo o que minha família tem agora é o acordo que fizeram.

— E que o senhor desdenha dizendo que vai mentir.

— Olha, eu dividiria nossa conversa em três. Um: o que é possível contar. Dois: o que eu devo contar. Três: o que eu devo esperar para contar.

— Vamos começar com o que é possível.

— Um peso enorme. Era isso que eu carregava quando me inscrevi no sistema de cadastro. Eu precisava do dinheiro porque era minha família que estava em jogo. Fui selecionado pelo sistema, e recebi o kit em poucos dias. A cada cartão clonado a divisão era meio a meio. Entendi como o organismo funcionava e criei meu próprio banco em dois anos. Uma boa equipe de marketing e em pouco tempo éramos líderes de mercado. Um andar no primeiro ano. Um prédio inteiro no segundo. Tínhamos dados de milhões de usuários. Hábitos e gastos de cada cliente, e também de seus familiares. O sistema era simples: um algoritmo avalia atos sequenciais d a vida de cada pessoa, e através deles cria códigos com ameaças virtuais. Clonar cartões em caixas eletrônicos virou coisa de amador. Eu poderia ir muito além disso, afinal, estudei para ser o rei das finanças e da segurança eletrônica. Foi assim que tive a ideia de criar o vilão para vender o mocinho. Os clientes eram informados que, na nossa plataforma, os bandidos eram identificados antes do seu ataque. Quem não quer esse serviço de proteção único no mundo?  Com o tempo, clientes de todos os bancos sofreram ataques e ficaram no prejuízo. Os nossos, não. E assim foi fácil crescer. Contando com a melhor das ações de marketing, que é o boca-a-boca, e sabendo que reclamações se espalham rapidamente no mundo dos negócios, você imagina a potência que se tornou nosso trabalho. Essa foi a primeira parte: o que é possível contar.

— Boa parte dessa história já sabíamos. Agora vamos para a segunda parte: o que você deve nos contar?

— A ganância. Mesmo quando o ser humano tem muito, ele quer mais a todo custo. Sabe por quê? Porque assim ele vira dono de tudo, até dos outros. Pelo menos na cabeça dele. Todo mundo tem um preço, acredite nisso. Se você tem dinheiro, pode comprar o que quiser, quem quiser.

— Nem todo mundo.

— Todo mundo. Se eu ainda tivesse dinheiro, eu não estaria mais aqui. Você tem um preço, eu tenho certeza disso.

— Não tenho.

— Tem sim. Eu poderia fazer um combo com você. Poupo você ou alguém de sua família de um problema sério. Está bom esse pagamento?

— Como eu acreditaria que você tem certeza do problema?

— Pronto. Você fez a pergunta, já está seduzido. Se interessou. Faria tudo por mim.

— Você não sabe quem eu sou, nem conhece minha família.

— Tenho certeza que você tinha uma conta no meu banco.

— …

— Continuando a história. Meu banco evoluiu ainda mais. Com um banco de dados cada vez mais profundo, começou a usar nosso algoritmo para poupar as pessoas de mais problemas, não apenas os financeiros. Se é que me entende. O sistema fazia de tudo: de disparar alarmes em residências a usar smartphones como se fosse qualquer pessoa. A confiança do nosso cliente era ilimitada. Foi quando demos nosso maior passo: o sistema de análise óptico. As pesquisas da empresa evoluíram num ponto que conseguimos identificar traços da saúde do cliente através de análises feitas pelas câmeras do smartphone. Com o tempo, o algoritmo começou a trabalhar e cruzar dados importantes da vida de cada pessoa: a análise óptica, alimentação, poluição dos locais onde frequenta, etc.  Nossos relatórios eram capazes de acessar contas de médicos e enviar pedidos de exame que identificavam possíveis doenças ainda em estágio inicial. E acertava demais. Pagavam caro pelo serviço, mas valia muito a pena. Nosso banco de dados é uma usina de informação relevante. E o cliente raramente sabe tudo o que deve. A gente dava informação devagar, sempre guardava os dados para usar no futuro. Isso é o que eu devo dizer, mas que certamente você não sabia.

— Certo. Entendi. Está suficiente por hoje. Temos muita coisa para analisar com isso que nos disse.

— Agora falta a terceira parte: o que eu devo esperar para dizer.

— Voltaremos em breve e o senhor nos conta tudo.

— Será que o senhor tem todo esse tempo? Essa espera pode ser negociada. Só depende da sua urgência em saber sobre sua vida e a da sua família.

— …

— Eu sabia que seria preso. Fiquei sem saída. Por isso vocês não encontraram nenhum dado sobre estes últimos relatos que dei nos computadores da empresa. No depoimento, confessei que os tinha apagado. Menti. Somente eu sei onde estão guardados. Sempre mantive cópias dos dados escondidas em algum lugar do mundo. É uma regra básica de quem trabalha com dados: backup. Agora, podemos negociar nosso futuro?


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