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Fuga
Por Fabio Sola 3 min. de leitura
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Fuga

Por Fabio Sola

— Você já reparou que essas luzes no teto são os reflexos de algo que está lá embaixo? Olhe, algumas se movem. Dá até para a gente tentar adivinhar o que é.

— Tem umas entradas de luz pelas frestas da cortina que fazem esse efeito. Algumas vêm do sol das oito, mas outras de fato se movem.

— Olha, aquela dali com certeza é um ônibus. É retangular.

— Deve ser, porque quando ela anda dá para ouvir o barulho do ônibus também.

— Isso é muito louco. Totalmente aleatório, porque a cortina não cobre totalmente a janela, principalmente na parte de cima. Aí faz esses brilhos. Parece um imenso quadro abstrato no nosso teto.

— Muito mais que isso, porque os carros têm que se posicionar num lugar perfeito, de onde conseguem rebater a luz do sol para cá.

— Olha, ali é o sinal de trânsito. Aquelas luzes ali em cima, tá vendo? São os carros. Alguns se mexem quando o sinal abre.

— Outras somem, não é?

— Isso! Essas mesmas!

— Daria para a gente ficar aqui um tempão só vendo isso.

— Já estamos há mais tempo do que deveríamos.

— Só mais um pouquinho. É tão divertido!

— Ha! Só você mesmo para gostar dessas coisas.

— Isso é um meio de comunicação, sabe? Sem tecnologia moderna, sem linguagem, letras ou imagens. É tipo um relógio de sol moderno: luz e sombra com a capacidade de nos informar como está o tempo lá fora e as condições do trânsito para sair de cama. Não é incrível?

— Relógios de sol não eram tão precisos. Acho que tinham uma diferença de 15 minutos para o horário real.

— Tinham, não. Têm. Enquanto existir o sol, eles ainda existirão. Esse nosso relógio pode não ter as horas, mas eu gosto mesmo é de ficar vendo os reflexos dos carros.

— Nos dias nublados também não fica assim tão iluminado aqui no quarto. E acho que em determinada época do ano também não, porque o sol faz outro trajeto.

— Aquele dali é o meu ônibus.

— Como você sabe?

— Pela cor. Está vendo ali um reflexo azulado. Fraquinho, mas dá para ver.

— Então você acabou de perder.

— É, pelo horário, era para eu estar exatamente nesse daí. Não tem problema, adoro ficar aqui vendo isso com você. Além do mais, a partir de agora os ventos favoráveis do tráfego trazem bastante ônibus para cá.

— Estamos sempre com tanta pressa nessas ventanias das manhãs. Também estou achando bom.

— Daqui parece tudo tão mais simples, tão calmo, não é? Ver a cidade assim a deixa mais bonita, mais segura. Parece que os problemas se desfazem no ar e assim podemos ficar tranquilos.

— Parece coisa de filme, ou daqueles lugares lá da Escandinávia onde todos vivem felizes para sempre.

— Não sei se é bem assim.

— Por quê?

— Porque lá é muito frio, deve faltar sol para conseguir esses reflexos.

— Quem pode viver dentro dessas luzes nem precisa dessa nossa fuga da realidade.

— Não sei. Acho que todo mundo precisa de uma fuga da realidade, mesmo que seja a melhor realidade possível. Mesmice incomoda.

— Talvez se distraiam com outros afazeres. Nossa distração aqui é, muitas vezes, uma tentativa de se afogar o medo que sentimos. A deles é apenas para coisas normais: ler, tomar um café, passear no parque…

— A verdade é que sempre se tem do que reclamar.

— Também acho. Senão tudo seria bastante chato mesmo.

— Menos a gente com nossas luzes no teto. Se isso virar um problema, simplesmente paramos de assistir.

— Quem dera a gente pudesse aplicar essa solução para tudo.

— Quem dera.


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