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Julgamento
Por Fabio Sola 3 min. de leitura
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Julgamento

Por Fabio Sola

— Faltam quantas estações?

— 12, mas é rápido.

— Tá cheio, mas acho que vai esvaziar.

— Nem precisamos sentar.

— Não, assim está ótimo. Me sinto mal quando sento no metrô.

— Por quê?

— Porque se entra uma senhora idosa eu vou ter que levantar, mesmo que não esteja no assento especial.

— E sempre entra uma quando esses lugares de prioridade estão ocupados, não é?

— Exatamente. Aí eu fico com a sensação de que todos me olham olham e esperam a minha reação para ajudar a senhora.

— Isso é uma situação! Eu entendo perfeitamente. Mesmo tendo outras pessoas mais novas que podem ceder o lugar.

— Pessoas mais novas estão sempre de óculos escuros, com fone de ouvido e olhando o celular. Fazem de tudo para disfarçar que não notaram.

— Ou fingindo que dormem.

— Aí, eu fico em pé mesmo. Assim evito os olhares julgadores.

— Olha lá! A senhora cheia de sacola e o marmanjo não para de apertar frutas na tela do celular.

— E ninguém o julga. Se fosse eu, já estavam quase me linchando.

— Que exagero! Vai ver isso é coisa da sua cabeça, porque você com esse cabelo pintado de amarelo aí já atrai olhares demais.

— Preconceito.

— E no trabalho? Também é complicado?

— Tenho que ensinar os professores de natação a dar aula para criança, acredita?

— Como assim? Sério?

— Os caras são formados, deveriam saber o mínimo. Aí tenho eu, um recreador, que mostrar para eles como é que se faz.

— E como é que se faz?

— Bom, primeiro você tem que ter uma piscina. Depois, tem que ter água na piscina. E essa água tem que estar limpa.

— Ha!

— Falando sério agora. Os professores não perguntam nada para os pais antes das aulas. Por isso eu digo: nada como a velha e boa anamnese. Tem que perguntar para o pai o motivo do filho estar na aula. Se foi por vontade própria dele, se foi por vontade dos pais, se foi por indicação médica.

— Indicação médica?

— Claro! Por exemplo, tem pai que coloca o filho diagnosticado com déficit de atenção na natação e não fala do problema para o professor. Por quê? Porque o professor não perguntou. Aí, eu chego lá e resolvo.

— E o clube? Não te dá nenhum “adianto”?

— Se o clube soubesse trocaria os professores.

— Além do que eles não confiam em alguém com o cabelo pintado.

— Ha! Lá vem você. E essa tatuagem maluca aí?

— YOU CAN BE GREATER. YOU CAN BE THE BEST.

— Por que isso em inglês? E por que no pescoço?

— Doeu muito fazer.

— Então por que você fez? Já tem essa cara, duvido que você também não sofra com os olhares por aí.

— Que nada, as pessoas me respeitam mais.

— Faltam quantas estações?

— Duas. Falei que era rápido.

— Esvaziou bastante.

— Dia normal de trabalho. Todo mundo desceu no Centro. Pouca gente vai à praia como nós.

— Só que não tem onde sentar.

— A senhorinha continua em pé.

— Em pé e não para de olhar para a gente. Julgando.


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