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Minha Falsa Solidão Lacrimosa
Por Fabio Sola 4 min. de leitura
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Minha Falsa Solidão Lacrimosa

Por Fabio Sola

— Saia daí, rapaz! Este lugar está fervendo!

— Sinto apenas frio.

— O que houve? O que são essas lágrimas? Tristeza?

— Nostalgia.

— Palavra bonita. Não combina com esse cenário de galpão demolido abandonado, cheio de ferro distorcido com mato crescendo em tudo quanto é lugar e debaixo de um sol de 40 graus. Não é melhor curtir essa nostalgia em outro lugar?

— Aqui faz mais sentido para mim.

— Era um local especial para você?

— Não, mas daqui é possível ver de longe um lugar onde vivi muitas coisas.

— Aquele lugar?

— Sim.

— O tempo passa. O que toca nesse fone de ouvido aí?

— Música americana. Daquelas que eu ouvia quando comprava CDs, comia fast-food e frequentava o cinema.

— Não faz tanto tempo assim, então.

— Não, mas hoje não é mais possível fazer todas essas coisas.

— Claro que é. Tem cinema para todo lado.

— É, cinema ainda tem.

— Fast-food tem mais que cinema.

— Estou velho demais para esse tipo de comida.

— Loja de CDs que são mais difíceis de encontrar.

— Não tenho nem onde ouvir. Não existe mais CD player. É tudo online. Olha aqui, eu mesmo escuto música pelo celular. E posso ver meus filmes por aqui também. Por que ir ao cinema? Não existe mais aquele tempo lá.

— Lá?

— Sim. Do resto, minha falsa solidão lacrimosa.

— O quê?

— É uma poesia.

— De quem?

— Não sei, esqueci. Acho que ninguém importante. Aliás, poesia nenhuma é importante. Nem as escritas, nem as vividas. Só perda de tempo.

—Claro que é! Temos muitos poetas importantes na literatura.

— Você lembra o nome dos poetas, mas esquece suas poesias.

— Se você sente nostalgia com a poesia, já há valor suficiente na vida. Não é perda de tempo. Agora, é uma decisão sua sobre como lidar com isso. Você tem três possibilidades: aceitar e levar numa boa (gostando ou não); viver miseravelmente; ou mudar completamente.

— Sou mais Martingale do que essas possibilidades podem prever.

— O que é Martingale?

— Não vou te perturbar com chatas teorias das probabilidades, mas, em resumo, é uma maneira de encarar a vida sem levar em conta o que aconteceu no passado. Só interessa presente honesto.

— Sei. Falou a pessoa que se diz nostálgica.

— A gente sempre quer ser aquilo que não é, ter aquilo que não tem. Choramos descontos de dez contos num estacionamento e pagamos milhares de reais em mensalidades do carro. Que sentido precisamos fazer em nossas palavras quando as atitudes são bem mais incoerentes?

— O que é um homem sem sua falta de coerência, não é?

— Talvez responda à tua pergunta inicial.

— Já nem lembro qual era.

— “O que houve?”.

— Seu choro é comovente, mas vamos. Vamos para a sombra pelo menos. O que você tem de lágrimas eu tenho de suor.

— Vá se hidratar. Estou bem aqui.

— Eu também tenho minhas lembranças.

— Em nossa mente, muitas coisas importantes são esquecidas. Acho crueldade termos que conviver com certas memórias inúteis.

— Só não entendo porque você se emocionou tanto com coisas tão pífias.

— Quem é você para julgar isto?

— Certamente você viveu coisas mais sérias e tem problemas maiores do que não poder comer hambúrguer.

— Pensamentos nunca andam sozinhos. Uma coisa leva à outra, que leva à outra… e à outra.

— Amor.

— O quê?

— Tudo começa e acaba com um romance. E, provavelmente, é essa a origem das tuas lágrimas.

— Acho que não lhe expliquei bem o que sinto aqui.

— Quer falar sobre isso?

— Tem coisas que não precisam ser ditas, apenas sentidas.

— É, só que os pensamentos que lhe acompanham falam alto demais para alguém que quer se esconder.

— Está tão óbvio assim?

— Seu rosto não mente. Pode até ser o cansaço, a miséria, o calor, mas seus olhos já não escondem mais a fraude.

— …

— Vida vazia, arrependimento, carga nula. Ninguém amarga em sofrimento com um perfil nostálgico como o teu. Pelo menos não dessa maneira. Sua profundeza é tão rasa que lhe falta criatividade para levantar daí.

— Levei anos para construir minha total aniquilação e você a destrói com vinte palavras? Não lhe dei essa permissão.

— Críticas desautorizadas são mais sinceras.

— Criticar é servir farofa com ventilador.

— Sempre tem aqueles que protegem o prato com o próprio corpo e aproveitam o vento para se refrescar.

— Já ouviu falar num sujeito que prevê o futuro de ações da bolsa de valores através do voo dos pássaros?

— E ele acerta muito?

— Acertou durante um tempo. Depois começou a errar seguidas vezes e perdeu tudo.

— Não soube a hora de parar?

— Tudo o que ele tem hoje são suas lembranças.


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