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Missão Incompleta
Por Fabio Sola 3 min. de leitura
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Missão Incompleta

Por Fabio Sola

— “Perigo grande. Ponto. Em risco. Ponto. Enviar resgate imediato.”. É preciso enviar este telegrama agora!

— Minutinho, seu Dori, que estou com o lustra móveis aqui. Já vejo pro senhor.

— Você não está entendendo a gravidade da situação…

— Seu Dori! De novo essa roupa velha com cheiro de mofo?

— Não é roupa velha. É meu fardão de almirante. E eu ordeno que…

— O senhor não tem jeito. Venha, sente na mesa que já vou servir o almoço.

— Não há tempo para isso. Precisamos de um plano de fuga já! Os invasores estão a caminho.

— Depois do almoço a gente vê esse plano e foge. Para onde o senhor quer ir?

— Temos que abandonar. Nosso destino decidimos depois.

— Ih, eu gosto de planejamento, seu Dori. Sei lidar com essa coisa de ver depois, não.

— O planejamento já era. Precisamos agir rapidamente.

— Pronto, aqui está seu prato.

— Você é uma pessoa boa. Cuida de mim e eu mal lhe conheço.

— São só dez anos, né, seu Dori?

— Fui casado por 50. Achei que conhecia a mulher. No final a vi fugir com meu imediato.

— Ela não fugiu, seu Dori. Ela foi só visitar seu filho por um mês em outro país.

— Traição. Nossa pátria não merece.

— Que traição, que nada. Inclusive, ela já deve estar pra chegar aí com ele. O voo aterrissou há duas horas. Daqui a pouco eles entram aqui.

— É o que estou tentando te falar. Eles vão invadir, e não teremos chance. Temos que abandonar agora!

— E aí, pai! Onde é a guerra?!

— Tarde demais.

— Meu amor, já te falei que essa roupa…

— Eu me entrego. Vocês venceram!

— Pai, trouxe um presente para o senhor.

— O que é isto?

— Aquele whisky que o senhor adora.

— Obrigado. Já vem com cicuta?

— Ha! A guerra acabou, pai.

— Deixa eu guardar para o senhor, seu Dori.

— Vem aqui, deixa eu falar baixo para enganar o inimigo. Jogue fora este líquido. É veneno.

— Amor, olha, temos uma novidade que você vai adorar.

— Já vão embora?

— Pare com isto! Vou deixar que ele lhe conte. Não quero estragar a surpresa.

— Ih, já sei. Desconfiava há anos.

— Seu Dori, o senhor quer mais?

— Não, obrigado. Vou ficar enjoado em alguns minutos.

— Pai, adivinha?

— Nunca fui bom nisso.

— Vou me casar.

— Contra quem?

— Comigo mesmo. Está na moda para quem não encontrou ninguém.

— Para quem você está ligando, amor?

— Para o sanatório.

— Eu não estou louco, pai. Isso agora é normal!

— Não é para levar você, é para mim!

— Ha! Amor, olha, vou no salão ficar mais jovem. Deixarei vocês dois colocarem a conversa em dia.

— Eu também vou sair para ver os preparativos do casamento.

— O senhor quer sobremesa, seu Dori?

— Traz aquele whisky.


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