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Terapia
Por Fabio Sola 4 min. de leitura
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Terapia

Por Fabio Sola

— Quatro coisas definem a vida: culpa, ódio, decepção e prazer.

— Fale por você mesmo.

— Não é assim com você?

— Não sei se consigo ser tão sucinto.

— Veja, está tudo interligado. Muitas vezes o prazer gera culpa. Se há culpa, pode ser decepcionante para alguém, ou para si próprio. O que leva ao ódio.

— Sim, mas nem sempre e não somente isso.

— O que mais, então?

— Você pode ter uma vida agradável. Pode estar feliz na maior parte do tempo.

— A felicidade é um prazer.

— Claro. E isso não é bom?

— Até que isso vire normalidade e monotonia e te decepcione a médio, longo prazo.

— Quanto pessimismo!

— Está decepcionado comigo?

— Não, estou preocupado.

— Não, você não está. Nem somos tão íntimos para você se preocupar comigo de verdade.

— Sou seu terapeuta, claro que estou preocupado…

— Mentira. Este é o seu trabalho. Você diz que está preocupado porque sente culpa de não sentir absolutamente nada.

— Você sente prazer em fazer isso, não é?

— Fazer o quê?

— Adivinhar o que os outros sentem e pensam.

— Acertei? Não precisa responder. Eu já sei a resposta.

— E qual é?

— Você vai dar a resposta padrão de que está, sim, preocupado. Você é profissional. Mas sabemos qual é a verdade.

— Assim você me ofende.

— Sentiu ódio?

— Talvez seja melhor você buscar outro terapeuta.

— Quatro coisas definem a vida: culpa, ódio, decepção e prazer.

— Ok.

— Não é verdade?

— Pode ser.

— Por exemplo, estou decepcionado com sua falta de resposta. Isso me faz ficar com ódio e tira meu prazer de vir na terapia.

— Você busca prazer na terapia?

— Não é essa a ideia?

— Não.

— Quatro coisas definem a vida: culpa, ódio, decepção e prazer.

— Sabe que tem uma série chamada Gordura Sal Ácido Calor. Diz que tudo quanto é comida boa precisa de um pouco de cada coisa dessas para ser preparada. O documentário viaja por quatro países que representam cada um desses elementos.

— Onde eu aperto para pular a propaganda?

— O quê?

— Não sabia que tinha merchandising em terapia agora.

— Só achei que valia a dica.

— Quanto a Netflix te paga para fazer esse anúncio?

— Essa grosseria toda é um sentimento de culpa?

— Culpa, ódio, decepção e prazer.

— E se você tivesse que relacionar um país a cada item?

— Culpa é Alemanha. Eles se sentem culpados pelo Nazismo.

— Verdade.

— Ódio é o Oriente Médio. Muita briga por conta de religiões.

— São vários países no Oriente Médio, mas tudo bem, a média é essa mesma.

— Decepção é o Japão. Eles não lidam muito bem com os próprios erros.

— Ou lidam tão bem que…

— Não, claro que não. Eles se matam porque erram.

— Não é bem assim, mas eu entendi seu ponto.

— Prazer é o Brasil. Aqui comemora-se tudo. Não importa se deu certo ou errado.

— Ha! Com certeza.

— Mas por que essa comparação?

— Te falei. É que no documentário eles visitam cada país para mostrar cada elemento da culinária.

— Você deve ter algum problema com esse documentário. Algum país da série tem a ver com o que eu falei?

— Japão. Eles mostram as formas como os japoneses usam o sal.

— Uma comida sem sal é decepcionante.

— Exato.

— Muito ou pouco sal é decepcionante. Tira o prazer da comida e causa ódio em quem come. Por outro lado, o sal ideal nos faz comer mais, exagerar e depois sentir culpa.

— Não há saída.

— Não.

— Pode ir, então. Vou fechar meu consultório.

— Não faz sentido, certo?

— Certo. Não vou mais conseguir ser terapeuta depois dessa revelação.

— E o que você vai fazer agora?

— O mesmo que você.

— Como assim?

— Vou sair por aí falando com vários terapeutas essa sua teoria só para perturbar a vida e o trabalho deles. Sentirei prazer em fazer isso, serei odiado, causarei decepções e sentirei culpa.


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