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Vem Junto
Por Fabio Sola 3 min. de leitura
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Vem Junto

Por Fabio Sola

 — Uma conveniência, por favor.

 — Qual o senhor vai querer?

 — O que tem aí?

 — Hoje temos “Domesticada”, “Sofisticada” e “Mista”.

 — ”Mista” é o quê?

 — É a mistura da “Domesticada” com a “Sofisticada”.

 — E fica bom?

 — Fica conveniente.

 — Para quem?

 — Para esta loja de conveniências, principalmente. Juntamos o que resta de um com o que resta do outro e preparamos a mistura.

— As duas coisas são antagônicas. “Domesticada” é para aquele que se conforta no “lar”. Gosta de se sentir em casa e estranha toda opinião diferente. É para o lugar-comum, para manter o status quo, entende? Como você mistura essa conveniência, que é para um público sem grandes ambições, ingênuo e naïf com a “Sofisticada”? A origem da palavra já diz bastante: vem dos sofistas! Essa conveniência é para os refinados, cheios de conhecimento, difíceis de moldar e domesticar. É para gente que gosta de incomodar. Como vocês juntam isso num único pacote?

 — Nunca ouvi reclamações.

 — Muita gente compra?

 — Sai bastante.

 — Muito conveniente para vocês!

 — Estamos no ramo há bastante tempo.

 — Tem gente que compra sem saber do que se trata, não é?

 — A loja de inconveniências é ao lado.

 — Qual inconveniência você precisa?

 — Tem cinco minutos?

 — Não, acabou. Tempo só tenho calibre um.

 — Um minuto?

 — Sim.

 — Não vai dar tempo. Preciso de cinco para dar uma lição numa pessoa impertinente.

 — Pior é que eu não tenho nem cinco de um para te oferecer.

 — Tem alguma ideia para me ajudar?

 — Aqui a gente não ajuda, só vende.

 — Então, mas se você me ajudar a escolher eu posso comprar de você.

 — Muito conveniente para uma loja de inconveniências.

 — O senhor acabou de tentar me ajudar. Disse que até me ofereceria cinco minutos em calibres de um. Que tipo de loja de inconveniência é esta.

 — Isso foi o que eu lhe disse, não significa que seja verdade.

 — Quanta inconveniência!

 — Precisamente.

 — Me dá uma caixa de verbo, então.

 — Você sabe usar?

 — Lógico!

 — Não parece.

 — Quanto é?

 — Não posso vender verbo para quem não sabe usar. É muito perigoso.

 — Me dê logo isto!

 — Agora, sim! Vou colocar aqui na sacola uma homenagem de brinde para você.

 — Homenagem?

 — É, não gosta de uma homenagem? Hoje em dia todo mundo acha que precisa de uma homenagem. Então, incluímos este produto no nosso catálogo recentemente. Como é o mês de promoções, vamos dar uma grátis para nossos clientes. Se gostar, volte e compre outra! Dê para algum amigo que precise.

 — Isso não deveria estar na loja de conveniências?

 — A do concorrente é outro tipo. A nossa é irônica.

 — Vocês fazem desfeita também?

 — Só por encomenda. Para quando seria?

 — Para sábado.

 — Qual a ocasião?

 — Festa de criança.

 — Nossa especialidade. Preencha os dados completos nesta ficha. Faremos com o menor prazer.

 — Pronto.

 — Volte nunca!

 — Todo mundo no chão, senão eu solto o verbo!

 — Calma, calma! O que você quer?

 — Quero que tire do cardápio a conveniência “Mista”.

 — Eu ia pedir esta!

 — Silêncio, senão vai sobrar para você também!

 — Deixe os clientes fora disso. Vamos resolver entre nós dois.

 — É briga de casal?

 — Já mandei calar a boca! E você, vamos! Quero ver jogar no lixo essas conveniências “Mistas”.

 — Pode me dar só uma?

 — Último aviso: não quero ouvir sua voz.

 — Pronto. Está tudo no lixo. Agora vá embora!

 — Que ironia! Quanta inconveniência me mandar embora da sua loja.

 — Na realidade, é bastante conveniente neste momento.

 — Para quem?

 — Para você. O detector verbal aciona a Polícia Infinitiva. Se você não sumir daqui ficará preso infinitamente.

 — Que sirva de lição! Adeus!

 — Volte sempre.


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